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O relator do Plano Nacional de Educação (PNE), Angelo Vanhoni, esteve na Unicentro, em Guarapuava/PR, no dia 10/04, participando dos eventos “Guarapuava Construindo o Plano Municipal de Educação”, realizado pela Secretaria Municipal de Educação, com a presença de profissionais de educação de todos os níveis e segmentos; e no “Seminário Regional da Secretaria de Assuntos Municipais da APP-Sindicato”, voltado à formação dos núcleos sindicais, secretários municipais e representantes das comissões organizadoras dos Planos Municipais de Educação (PMEs), ampliando o debate sobre a elaboração dos mesmos.
Vanhoni falou sobre as conquistas garantidas na nova legislação, ressaltando os desafios e a adequação das metas do PNE às realidades regionais de cada município.
Clique e conheça as 20 metas previstas pelo PNE e seus números adequados à realidade do Estado do Paraná.

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“Estamos aqui discutindo o Plano Municipal de Educação porque há uma previsão legal do Plano Nacional sancionado pela presidenta Dilma em junho de 2014 estipulando o prazo de um ano para que os estados e os municípios tenham seus planos realizados, para que o Brasil possa pensar a educação de maneira sistêmica em todo o país.
A realidade local é o que vocês vão discutir, pois vocês a conhecem. O que eu pretendo trazer aqui hoje são alguns números, algumas reflexões e alguns dados sobre a educação no Brasil como um todo, para que possamos comparar a proximidade ou a diferença da realidade aqui do Paraná, da cidade de Ipiranga ou de Guarapuava, pois o resto do Brasil tem tais problemas, iguais ou parecidos com os nossos daqui, nesse imenso país.”
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“Nós somos 200 milhões de brasileiros. Desses 200 milhões, todo dia acordam de manhã e vão para dentro da escola no Norte, no Nordeste, aqui no Paraná, no Brasil inteiro 50 milhões de alunos. Não é pouca gente! E na educação infantil por exemplo – de 0 a 3 anos – nós temos 11 milhões de crianças no Brasil, e nós queremos colocar 5 milhões de crianças na escola nos próximos 10 anos, porque só temos 2 milhões de crianças, hoje, frequentando alguma creche. São poucas as creches comunitárias e são muito poucas as creches públicas no nosso país. Porque o Brasil, ao longo desses últimos 100 anos nunca teve uma política pública para a educação infantil. Está começando a desenvolver agora nos últimos 10, 15 anos o que é uma realidade na Europa há mais de 50 anos.
Então, um aspecto é universalizar, colocando para dentro quem está de fora, e outra questão é a proposta pedagógica. Em países desenvolvidos, na Itália, na Inglaterra, existe proposta pedagógica para crianças de 0 a 3 anos, e para as crianças de 4 e 5 anos. Enquanto a proposta pedagógica desenvolvida por nós até agora é incipiente, tem pouco acúmulo, tem pouca experiência do ponto de vista público. E vejam, nós estamos falando de uma proposta pedagógica para 11 milhões de crianças de 0 a 3 anos e aproximadamente 6 milhões de crianças de 4 e 5 anos!
Outra coisa ainda é a formação continuada do professor, a valorização financeira da profissão, plano de cargos e salários, etc…”

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“… eu falo isso porque o desafio do Brasil na educação é monumental! Desses 50 milhões de brasileiros que estão frequentando a escola, a grande falta ocorre em duas modalidades: no ensino infantil, de 0 a 5 anos, e no ensino superior, onde o nosso problema é gravíssimo! Temos hoje 7 milhões frequentando uma faculdade, mas nós temos 42 milhões de jovens de 18 a 24 anos no Brasil.
Temos 9 milhões de jovens de 15 a 17 anos matriculados no ensino médio e 1 milhão e 400 mil se formam todo ano. Mas, destes 1 milhão e 400 mil que se formam anualmente no ensino médio, apenas a metade sai com compreensão de matemática suficiente para entrar na faculdade. Então, isso poderá ser um problema mais para a frente, não é?
Nós temos um problema na base porque o país nunca se dedicou à base, e nós temos um grande desafio no ensino médio e no ensino superior. No ensino superior o desafio é ainda maior porque, do ponto de vista público, dos 7 milhões de matriculados apenas 1,5 milhão estão numa universidade pública. É muito pouco para 150 anos de educação no Brasil! A Argentina tem 36% dos jovens matriculados no ensino superior, o Chile tem 38%, os Estados Unidos, a França e a Inglaterra tem 60% dos jovens de 18 a 24 anos de idade matriculados no ensino superior.
Minha opinião sobre o Plano Nacional e os Planos Estaduais e Municipais que vão orientar a educação nos próximos 10 anos é a de que existem duas questões cruciais. Ampliar o ensino superior público, expandir a educação infantil, enfrentar o problema do ensino médio, todas essas medidas de inclusão são fundamentais, mas nós temos que enfrentar o problema da qualidade da educação. A nossa criançada tem que terminar a série conhecendo muito bem os conteúdos daquela série, daquela etapa, mas, além de estar conhecendo elas tem que estar com vontade de continuar estudando. Para isso precisamos de um esforço monumental envolvendo os prefeitos, governadores e o presidente da República na direção da educação integral, avançar na educação integral.”
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“Na Europa inteira, mesmo em Portugal ou na Grécia, que são países mais pobres e que estão passando por dificuldades, os pais deixam as crianças na escola as 7, 8 horas da manhã e vão buscar as 5 horas da tarde. Tem tempo para o professor organizar uma grade curricular, fazer um reforço do ponto de vista dos conteúdos e desenvolver nas crianças a parte da emoção, do coração, que faz parte do ser humano e que nós aqui no Brasil estamos trabalhando de forma errada.
Nós não desenvolvemos a parte cultural das nossas crianças, a parte artística. Não tem aula de musica, não tem aula de teatro, não tem dança. Nós estamos formando a criançada apenas para o mundo do trabalho e não para o mundo dos valores, para o mundo da cultura. Por isso o sujeito cresce e depois não sabe fazer juízo de valor sobre o que é certo e o que é errado. E isso a gente aprende não apenas com o que está escrito no quadro negro, a gente aprende com vivência, aprende com valores, com uma junção da razão com as questões mais profundas da alma, da valorização do que é ser humano. Então nós temos que mudar, com educação integral, com esse espaço maior que a LDB já prevê que a gente institua no Brasil, que outros povos no resto mundo perseguiram e que nós aqui, renitentemente insistimos em não fazer.
Muitos prefeitos pelo Brasil afora tem feito educação integral, mas para que isso dê resultado o professor tem que ser valorizado, o professor tem que ser respeitado, e essa é a outra questão fundamental. Se em 10 anos nós dobrarmos o piso dos professores e equipararmos o seu salário ao de profissional de mesmo nível – isso quer dizer que o professor com nível superior iniciará a carreira recebendo o mesmo salário de um profissional com igual graduação de outra área, em engenharia por exemplo. Se vocês que são professores, e nós da sociedade civil que temos a compreensão de que a educação é a principal ferramenta de mudança para se construir uma vida melhor, se a gente não exigir isso, não vamos esperar que o Congresso Nacional, que a Câmara de Vereadores ou o presidente da República o façam.
Espero ter contribuído com o debate trazendo uma visão mais geral na intenção de, ao mesmo tempo, ajudar a elaborar depois o Plano Estadual de Educação. Agradeço o convite. Obrigado.”
1Vista do Parque do Lago, em Guarapuava.
Fotos: Gilson Camargo